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Atualizado
31-Aug-10
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Desafiando a morte para
ganhar a vida
Jim Robbins
Em Sturgis, Dakota do Sul
Em uma noite quente e abafada na
Flórida há 32 anos, Samantha Morgan, 14 anos, estava sentada em
transe dentro de um pequeno autódromo barulhento, assistindo um
homem em uma motocicleta enquanto pilotava em círculos, sem
esforço, em um ângulo perpendicular ao solo a 100 km/h, rindo o
tempo todo.
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Samantha Morgan se apresenta na
"Parede da Morte"
"Eu vi aquele sujeito de lado na parede e foi como se alguém
tivesse me dado um tapa", ela disse. "Era a coisa mais legal que
já tinha visto." Quando a apresentação acabou, ela se aproximou do
proprietário, Sonny Pelaquin, e perguntou: "Meninas podem fazer
isto?"
Elas podiam e, aos 46 anos, a garota continua fazendo, às vezes 13
vezes por dia, no que é conhecido como "Wall of Death" (Parede da
Morte). "Ela é a melhor que há", disse Sandra Donmoyer, 27 anos,
que aprendeu o truque com Samantha. "Eu nunca vi ninguém fazer
isto como ela. Ela é fantástica."
O "motordrome" Wall of Death é um circo móvel de 9 metros feito de
pinho. Ele tem 4,5 metros de altura e parece uma antiga caixa
d'água de madeira ou silo; dentro de tal círculo, os motociclistas
parecem desafiar tanto as leis da física quanto do bom senso. Eles
dão algumas voltas ao redor da arena até estarem velozes o
bastante para fazer suas motos aderirem à parede. Eles não usam
capacetes, porque a gravidade exerceria tal pressão nos capacetes
que seria impossível erguer suas cabeças.
Samantha, que também usa o nome artístico Samantha Morgan Storm,
estava se preparando há duas semanas para três apresentações
noturnas dentro do Jay Lightnin's Wall of Death no Sturgis
Motorcycle Rally, o maior do país, um evento anual que atrai mais
de meio milhão de pessoas. O motordrome é a menor parte deste
evento, montado no estacionamento em frente a um bar de
motoqueiros e costuma atrair 20 a 30 pessoas por apresentação.
A esbelta e modesta Samantha abriu um grande sorriso quando lhe
foi perguntado o motivo para ter escolhido esta ocupação incomum,
e então deu de ombros. "Eu me apaixonei pelo wall", ela disse.
Ela e Sonny Pelaquin, que morreu por complicações ligadas à
diabete, ingressaram no Museu e Salão da Fama da Motocicleta de
Sturgis naquele dia.
"Sonny adorava o wall", ela disse, com expressão de recordação.
"Ele sempre ria quando pilotava."
Cercada pelos seus cães Mischief e Daisy, em um trailer com
ar-condicionado que serve como refúgio para o calor escaldante de
Dakota do Sul, ela confessou um certo nervosismo antes de cada
apresentação. "Eu sempre fico nervosa. Não assustada, mas
nervosa."
Tais sentimentos, é claro, são a moeda do reino para os envolvidos
em tais atividades. "Se a roda desliza enquanto você está lá em
cima e você consegue controlar e não cair no chão, causa uma certa
euforia", ela disse.
Se você cai, é claro, a euforia é superada pela dor. E ela já caiu
dezenas de vezes. Também ocorreram três grandes acidentes, o que
significa fraturas. O mais memorável foi em uma apresentação na
França, em 1992; as fraturas foram tantas -quadril, costas,
joelho, ombro, costelas, esterno; "como uma mosca esmagada", ela
disse- que foram necessários quatro meses para ela poder voltar
para casa. O lado positivo, ela disse, "é que aprendi a falar
francês". O mais recente acidente foi em 1998, que lhe valeram
pinos de metal nas costas e uma vértebra artificial.
A Wall of Death, ou Thrill Arena, como Samantha prefere chamá-la,
não é truque de parque de diversões, mas uma simples exploração da
força centrífuga. Os motordromes são uma variação das pistas de
corrida de 1 milha (1,6 km) -semelhantes, mas com laterais menos
inclinadas- que predominavam nos anos 20. Mas tantos corredores
morreram, assim como alguns poucos espectadores, que receberam o
nome de Wall of Death e acabaram sendo proibidos. Os motociclistas
se voltaram para os motordromes e um novo fenômeno nasceu.
Alguns pilotos até mesmo adicionavam leões, criando o liondrome e
a Corrida pela Vida. Assim que os pilotos começavam a andar pelas
paredes, leões treinados eram soltos e investiam contra as motos,
atacando com suas enormes patas. (Eles geralmente não conseguiam
pegar as motos.) A família de Sonny Pelaquin era dona de uma
destas atrações; tal era chegou ao fim em 1964, depois de um
funcionário de circo bêbado ter enfiado sua mão na jaula do leão e
ser mordido. A polícia foi chamada e, uma bala depois, o leão
chamado Rei estava morto e o espetáculo encerrado.
Os motordromes estão quase extintos. Restam apenas três no país,
disse Samantha, incluindo o California Hell Riders, que
estranhamente não fica na Califórnia, mas em Swansea,
Massachusetts. Talvez existam uns 15 no exterior. Um dos
passatempos de Samantha é pilotar em todos os motordromes
existentes que puder encontrar e, até o momento, já foram 11. Um
motordrome ornamentado em Munique se destaca.
Jay (Lightnin') Bentley, um piloto de acrobacias da Área da Baía,
construiu o usado aqui. Concluído em 1998, ele é o primeiro
motordrome construído desde 1958, ele disse. "Foram necessários
dois anos para construí-lo, trabalhando dia e noite", segundo ele.
"Meus vizinhos pensavam que era Noé construindo uma arca no
quintal." Bentley viaja com seu motordrome para apresentações em
Sturgis, na Biketoberfest em Daytona Beach, Flórida, ou no Evel
Knievel em Butte, Montana; os cinco pilotos -que também montam o
pesado motordrome toda vez que é transportado- realizam de 2 a 13
apresentações por dia, dependendo do interesse do público.
Pouco antes das 19 horas, com o sol se pondo atrás das Black Hills,
Bentley anuncia nos alto-falantes que a primeira apresentação está
prestes a começar. Os pilotos, incluindo Rick Ransom em um kart, e
os motociclistas Wahl E. Walker, Samantha Morgan e Bentley,
aceleram.
Poucos minutos depois, Samantha, a estrela do show, realiza sua
apresentação, vestindo calças colantes, botas e top pretos. Seus
longos cabelos loiros, penteados em duas tranças, são soprados
para trás pelo vento de 100 km/h enquanto um grande sorriso se
abre em seu rosto.
A visão é incomum o bastante para agitar a platéia de motoqueiros
beberrões, cujas cabeças se movem em uníssono para manter a
atenção na dama. "Esta é uma loucura que você precisa ver
pessoalmente, uma insanidade única na vida", disse Rick Krone, um
motoqueiro barrigudo e barbado de Fargo, Carolina do Norte.
Durante a apresentação, Samantha solta as mãos do guidom, trava a
aceleração e vira de cabeça para baixo, com mãos e pés abertos.
As motos e karts voando pelas paredes criam uma percepção
distorcida. Nenhuma outra experiência se aproxima disto.
A fascinação de Samantha Morton por este esporte extremo começou
cedo. Após fugir de um lar adotivo problemático em Long Island,
quando tinha 11 anos, e ter vivido nas ruas das cidades da Costa
Leste por alguns anos, ela foi parar em um parque de diversões em
Dade County, Flórida. Os apresentadores do show de Sonny Pelaquin,
Inferno sobre Rodas, a deixaram entrar. Ela ficou fascinada.
Atualmente o repertório dela de acrobacias é um dos maiores. "Ela
é única", disse Ransom, que já recebeu algumas orientações dela.
Morgan pilota uma Harley-Davidson 250 1975, mas apenas porque sua
moto favorita para "wall", uma Indian 101 Scout 1931 chamada Beth,
precisa de uma nova dianteira. Beth é grande, tem um centro de
gravidade baixo e se agarra melhor à parede, o que significa que
permite a Samantha realizar mais acrobacias. Mas se ela cai, a
moto pesada pode ser um problema. "Quando a Indian cai sobre mim,
ela me parte no meio", ela disse. Em setembro, ela seguirá para
Bonneville Salt Flats em Utah, para tentar quebrar o recorde de
velocidade em terra, que atualmente é de 209,399 km/h em uma
Indian Chief.
Enquanto ela busca suas metas, Samantha Morgan teme estar chegando
ao fim a era das mulheres em motordromes. No auge havia até 30
mulheres pilotando em motordromes, ela disse, mas atualmente não
há jovens surgindo para substituí-la. Ela conhece apenas mais uma
motociclista, Sandra Donmoyer, que atua nos Hell Riders e é
conhecida como Sandra D.
Mas Samantha continuará acelerando desafiadoramente no Wall of
Death ainda por algum tempo. Não há programa de aposentadoria para
estes pilotos, não há seguro saúde, apenas os dólares arremessados
pelos espectadores quando lhes é pedido que doem para cobrir
custos médicos; a certa altura do show, Samantha pilota sem usar
as mãos para recolher o dinheiro doado.
Mas pessoas como ela gostam do wall pelo prazer de provar a
mistura potente de gravidade e adrenalina. Saborear a liberdade
dos problemas terrenos, mesmo que por alguns minutos fugazes.
"Quando estou no wall", ela disse, "é o único momento em que toda
a dor desaparece".
Tradução: George El Khouri
Andolfato
Maiores informações sobre esta forma de
ganhar a vida em
www.motordrome.org
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